
Nos últimos anos, algo mudou silenciosamente no Brasil. A saúde mental, que por muito tempo foi assunto escondido, passou a ocupar o centro das conversas, dentro de casa, nas empresas, nos consultórios e nas redes sociais.
Uma reportagem recente da Forbes Brasil chamou atenção para um dado importante: hoje, a saúde mental já é a maior preocupação de saúde dos brasileiros, superando o câncer.
Como psicóloga clínica, eu não recebo esses números com surpresa. Eu os recebo como confirmação de algo que a prática vem mostrando há anos: não estamos apenas cansados, estamos emocionalmente sobrecarregados.
E talvez você se reconheça em algum ponto deste texto.
O dado que acende um alerta: 52% dos brasileiros apontam a saúde mental como principal preocupação
De acordo com o Ipsos Health Service Report 2025, citado pela Forbes, 52% dos brasileiros consideram a saúde mental sua maior preocupação de saúde, bem à frente do câncer (37%) e do estresse (33%). Em 2018, esse número era de apenas 18%. Isso significa que, em poucos anos, a forma como olhamos para o sofrimento emocional mudou radicalmente.
Mais um dado importante: 74% dos brasileiros dizem pensar com muita frequência sobre bem-estar emocional, colocando o país entre os que mais refletem sobre o tema no mundo.
Mas aqui há um ponto crucial: pensar mais sobre saúde mental não significa, necessariamente, cuidar melhor dela. Muitas pessoas têm consciência do próprio limite, mas seguem vivendo como se ele não existisse.
Afastamentos recordes: quando o corpo precisa parar porque a mente não aguenta mais
O Ministério da Previdência Social registrou, em 2024, 472.328 afastamentos por transtornos mentais no Brasil, o maior número em 10 anos, com aumento de 67% em relação ao ano anterior.
Esse dado fala de algo muito concreto:
pessoas que não conseguem mais ir trabalhar
profissionais que chegam ao ponto de ruptura emocional
corpos que dizem “basta” quando a mente tenta continuar
Especialistas citados na reportagem descrevem um fenômeno chamado “quiet cracking”: quando a sobrecarga emocional ultrapassa o limite, e o afastamento do trabalho vira o último recurso, porque o organismo já não suporta o ritmo.
Na prática clínica, isso aparece de muitas formas:
insônia ou sono não reparador
sensação de estar “no automático” o tempo todo
crises de choro, irritabilidade ou apatia
dificuldade de sentir prazer em coisas simples
queda de produtividade acompanhada de culpa
Não é “drama”. É esgotamento emocional. E ele não se resolve com frases prontas ou fim de semana de descanso.
Sete em cada dez profissionais se sentem emocionalmente sobrecarregados
A mesma reportagem mostra um retrato preocupante do ambiente de trabalho: quase 7 em cada 10 profissionais brasileiros se dizem emocionalmente sobrecarregados.
Entre os principais fatores apontados estão:
metas inalcançáveis
cultura do “sempre disponível”
falta de reconhecimento
gestões desorganizadas ou autoritárias
E entre os sintomas mais frequentes estão:
estresse intenso (46%)
tristeza persistente (25%)
raiva acumulada (18%)
Esses números confirmam algo importante: não estamos adoecendo apenas por questões individuais, mas também por contextos que normalizam a exaustão. Não é só “não saber dizer não”. É viver em ambientes que esperam de pessoas comuns um desempenho de máquina.
Mulheres e geração Z: quem está sentindo mais esse peso?
A pesquisa citada pela Forbes também mostra que mulheres e jovens da geração Z aparecem como os grupos mais preocupados com saúde mental: 60% em ambos os casos, contra 44% entre homens e 40% entre gerações mais velhas.
Muitas mulheres acumulam múltiplos papéis: trabalho, casa, família, cuidado emocional de todos.
Muitos jovens cresceram em um mundo hiperconectado, comparativo e acelerado, com acesso a informação, mas pouca estrutura interna para lidar com tanta pressão.
Na clínica, isso se traduz em:
culpa constante por “não dar conta”
medo de fracassar
sensação de nunca ser suficiente
exaustão emocional em idades cada vez mais jovens
Quando somamos expectativas sociais, pressões econômicas, cobrança interna e ambientes pouco saudáveis, o resultado não poderia ser outro: uma epidemia silenciosa de sofrimento emocional.
O impacto invisível nas empresas: presentismo, afastamentos e perda de sentido
A Organização Mundial da Saúde estima que transtornos mentais afetem mais de 15% da força de trabalho global, reduzindo produtividade e aumentando a rotatividade.
Um relatório citado pela Forbes aponta um dado impressionante: problemas de saúde mental geram uma perda de cerca de US$ 8,9 trilhões por ano na economia global, segundo a Gallup.
No Brasil, dados da healthtech Vittude indicam que o presenteísmo, quando a pessoa está presente fisicamente, mas emocionalmente exausta e improdutiva, pode chegar a 30%. Na prática, isso significa que muitas empresas precisam de dez pessoas para produzir o que sete fariam em condições saudáveis.
Ou seja: mão se trata “apenas” de bem-estar individual. É também uma questão de sustentabilidade de negócios, cultura organizacional e responsabilidade social.
O que isso tudo revela sobre a forma como estamos vivendo?
Quando a saúde mental ultrapassa o câncer como principal preocupação, isso não significa que o câncer deixou de ser grave. Significa que o sofrimento emocional deixou de caber nas gavetas de “fraqueza”, “ drama” ou “coisa da sua cabeça” e passou a ser visto como aquilo que sempre foi: uma questão séria de saúde.
Esses dados mostram que:
estamos vivendo acima do nosso ritmo emocional
confundimos produtividade com valor pessoal
normalizamos a exaustão como parte da vida adulta
colocamos metas acima de limites humanos
aprendemos a pedir desculpas pelo cansaço, mas não ajuda
O nome que alguns dão a isso é “epidemia silenciosa”. Eu chamaria também de um convite coletivo à revisão da forma como nos relacionamos com trabalho, performance, tempo e autocuidado.
De tratamento para prevenção: o movimento que ainda precisamos fazer
Uma das falas da reportagem me parece central: o maior desafio hoje é tirar a saúde mental apenas do campo do tratamento e levá-la para o campo da prevenção.
Na prática, isso significa:
olhar para sinais antes do colapso
construir rotinas mais gentis com o corpo e com a mente
falar sobre limites sem culpa
criar espaços seguros de escuta, em casa e no trabalho
entender que pedir ajuda profissional não é o fim, mas um recomeço possível
Para empresas, prevenção significa:
revisar metas e expectativas de forma realista
capacitar lideranças para reconhecer sinais de esgotamento
estimular pausas, férias e descanso sem culpa
tratar programas de bem-estar como prioridade, e não como “benefício extra”
Para pessoas, prevenção significa:
aprender a perceber os próprios sinais
não normalizar sintomas físicos e emocionais que persistem
abandonar a ideia de que “aguentar tudo” é sinal de força
permitir-se buscar ajuda antes do limite
E você, onde entra nisso tudo?
Talvez você esteja entre os 52% que apontam a saúde mental como a principal preocupação. Talvez você se veja em algum desses dados: exaustão, sobrecarga, presente fisicamente, distante por dentro.
Seja qual for o seu lugar nessa estatística, um ponto é importante: você é mais do que números, indicadores e produtividade.
Se a sua rotina tem custado a sua saúde emocional, isso não é “falta de resiliência”. É um sinal de que algo precisa ser revisto, internamente, externamente ou nos dois níveis.
Quando os sintomas emocionais e físicos começam a ganhar força, buscar apoio psicológico não é um luxo, nem um exagero. É uma forma de cuidar da sua história com responsabilidade, delicadeza e respeito ao que você sente.
A saúde mental se tornou a maior preocupação dos brasileiros. Talvez seja hora de ela se tornar, também, uma das maiores prioridades na sua vida.
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